Militante é agredida durante mobilização em São Miguel do Oeste/SC

Por Claudia Weinman, para Desacato. Info.

A Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR), Maura Letícia Tesser, foi agredida nesta terça-feira, dia 08, em São Miguel do Oeste/SC, durante a mobilização do Dia Internacional da Mulher. Maura estava contribuindo com a equipe de segurança da marcha quando sofreu a agressão.

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Companheira da PJMP/PJR foi agredida também no braço com arranhões

Os militantes de diversos movimentos populares, pastorais sociais, Igreja, organizações urbanas e camponesas mencionavam sua pauta de reivindicações em frente a Caixa Econômica Federal de São Miguel do Oeste, quando uma pessoa de fora das organizações tentou se infiltrar na barreira feita por homens e mulheres, do campo e da cidade, que estavam em mobilização e negociação com os representantes da Caixa Econômica. “A pessoa começou a empurrar os companheiros e companheiras que estavam fazendo o fechamento da Caixa Econômica durante o tempo de negociações. Iniciou-se um tumulto e essa mesma pessoa começou a dar socos para todos os lados. Consegui tirar a pessoa e empurrá-la para fora. Sofri arranhões no braço e também no rosto”, relatou a militante.

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Militante estava contribuindo com a segurança da mobilização quando foi agredida

Maura disse ainda que um Boletim de Ocorrência foi registrado contra ela. “Ele (o homem que a agrediu) registrou um Boletim de Ocorrência contra mim, como se ele fosse a vítima”, contextualizou Maura, enfatizando ainda que neste dia 08 de março, embora a pauta das organizações tenha sido clara nas ruas de São Miguel do Oeste, a violência, a agressão e os xingamentos praticados por uma parcela da sociedade Migueloestina mostram a profunda necessidade de mudança. “Estamos reivindicando nas ruas direitos que servem para estas pessoas também, que são trabalhadoras. Não dá para entender”, disse ela.

maura20164Militantes reivindicavam seus direitos no centro da cidade quando aconteceu o tumulto

O Jovem Leonardo Lucas Vilanova, Militante da Pastoral da Juventude Rural (PJR), destacou apoio a companheira agredida e salientou que essa violência faz parte da cultura machista, patriarcal que desenvolve-se a partir do Capitalismo. “Repudiamos a violência contra a nossa companheira e também todos os outros tipos de violência que a militância sofre no dia a dia. Precisamos acabar com essa cultura machista”, reforçou.

Da mesma forma, o coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), Pastoral da Juventude Rural (PJR), repudia a agressão contra a companheira Maura Letícia Tesser. Aponta aqui, sua indignação e repulso contra as atemorizações que este coletivo tem sofrido nos últimos meses. Ameaças que partem de trabalhadoras e trabalhadores que ainda não se conscientizaram quanto a necessidade de ocupar as ruas e lutar pelos seus direitos que historicamente foram conquistados por essas massas populares e agora, muitos deles estão passando por um processo de retrocesso. A PJMP e PJR de Santa Catarina, somando-se as mais de mil pessoas que ocuparam as ruas nesta terça-feira, dia 08 de março, em São Miguel do Oeste, segue vigiante. Lembra a toda sociedade que as lutas vão continuar, até que companheiros/as forem ameaçados/as, perseguidos/as

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Coletivo PJMP\PJR- SC denuncia:

São Miguel do Oeste, 09 de janeiro de 2016.

O Coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), Pastoral da Juventude Rural (PJR), do estado de Santa Catarina, vem a público denunciar as mazelas, perturbações, ameaças, discursos de ódio, desrespeito, difamação, insultos, calúnias, pelas quais, frequentemente as pessoas ligadas a este coletivo têm passado. Desde que essas duas pastorais assumiram a luta de classes na região e a luta pela vida dos povos, a exemplo dos indígenas, caboclos\as, negros\as, brancos\as, pardos\as, quilombolas, perseguições têm ocorrido. No entanto, é inconcebível aceitar a hostilidade, a repugnância e odiosidade aos nossos companheiros\as.

É inadmissível aceitar a atemorização. Como um coletivo valente, que se propõe a dialogar e construir pautas concretas em defesa da vida, somos difamados ao nos pronunciarmos em favor dos explorados\as e lascados\as da sociedade, especialmente  nas sessões realizadas na Câmara de Vereadores de São Miguel do Oeste e de outros municípios, sendo este coletivo intitulado de ‘baderneiro’ e ‘tumultuador’. Dentro das universidades, nossos companheiros\as têm sofrido ataques e processos por estimularem a democracia e a participação dos estudantes na defesa de seus direitos.

Nas escolas municipais, onde parte deste coletivo ainda se faz presente, também há preconceitos e as discrepâncias de pensamentos acabam refletindo em ódio profundo contra as organizações onde estamos inseridos\as. Em outros espaços públicos e mobilizações como o Grito dos Excluídos\as, durante o sete de setembro, no município de São Miguel do Oeste, onde denunciamos a mídia golpista e as atrocidades cometidas contra os jovens negros\as e pobres, somos insultados\as, perseguidos\as, fotografados\as, filmados\as. Nas redes sociais, ao divulgarmos a desinformação e o descompromisso dos governos e das mídias com o povo, o coletivo também é atacado fortemente com discursos fascistas, que remetem ao ódio e estimulam a violência, até a morte. Há poucos dias, também recebemos ameaças e intimidações de advogados por meio de ligações telefônicas e via rede social, após denunciarmos a expulsão de indígenas da rodoviária deste município. Nesta semana, outras ameaças foram proferidas aos nossos\as companheiros\as com dizeres como: “Conhecemos quem é, onde mora e número de residência”.

Diante de tudo isso, reafirmamos coletivamente nosso compromisso com a vida dos povos, com a vida e luta de nossos\as companheiros\as, que na sua consistência em combater a miséria herdada dos Capitalistas,  enfrentam com firmeza na sua opção, o terror que tem se disseminado por toda América Latina e mais próximo, nas suas regiões de atuação. Portanto, denegamos tais amedrontamentos e garantimos nossa defesa, inclusive judicialmente, caso essas situações persistam.

Assinam este documento:

Claudia Weinman- PJMP- São Miguel do Oeste

Pedro Alves Pinheiro-PJMP- São Miguel do Oeste

Tayson Bedin-PJR- Barra Bonita

Claudia Baumgardt- PJMP- São Miguel do Oeste

Paulo Fortes- PJMP- São Miguel do Oeste

Fabiula Fergutz-PJMP- São Miguel do Oeste

Rafael Fernando Lewer- PJMP- São Miguel do Oeste

Jociani Pinheiro Hammes- PJR- São Miguel do Oeste

Maura Letícia Tesser- PJMP – Guaraciaba

Augusto Henrique Menchik Mello-PJR- São Miguel do Oeste

Leonardo Lucas Vilanova- PJR- Barra Bonita

Vanessa Sandri-PJR- Paraíso

Lorenice Bianchini- PJR- Paraíso

Vinícios Czarnobay-PJMP – Balneário Camboriú

Henrique Xavier- PJMP- São Miguel do Oeste

Mateus Felipe de Deus e Silva- PJR- Barra Bonita

Maire Hoffmann- PJMP- São Miguel do Oeste

Paulo César Hoffmann- PJMP- São Miguel do Oeste

Pe. Reneu Zortea- Paróquia São Miguel Arcanjo

Amanda Provenci Bonamigo- PJMP- São Miguel do Oeste

Carlos Pinheiro- Desgarrados Grupo de Arte e Cultura

Camila Beatriz – PJMP- São Miguel do Oeste

Sabrina Bender- PJR- Barra Bonita

Grupo Tribo da Perifa- PJMP- São Miguel do Oeste

Gabrieli Westphal- Desgarrados Grupo de Arte e Cultura

Sidimar Borges- PJR- Barra Bonita

Cooperativa de Produção em Comunicação e Cultura – CpCC- Florianópolis

Direção Geral do Portal Desacato

Agência Comunidade- Tangará e região

Associação Comunitária e Cultura herdeiros do Contestado – ACECON

Associação Cultural Comunitária Amigos de Tangara – ACCAT

Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular – Apafec

Associação Vital Fraiburgo de Karatê-dô com atuação em Fraiburgo, Lebon Régis e Timbó Grande

Blog Esportes em Debates – Fraiburgo e região

Blog Palavras Insurgentes – Florianópolis

Revista Pobres e Nojentas – Florianópolis

Cássio Giovani Turra – Jornalista

Elaine Tavares – Jornalista Popular, com atuação no Instituto de estudos Latinoamericanos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina)

Emerson Souza – Educador Físico efetivo na rede municipal de educação de São Bento do Sul

Fabiane Aparecida Guedes – Educadora efetiva da rede estadual de ensino com atuação em Fraiburgo

Frederico Idalcir Colombelli – Professor de Língua Portuguesa efetivo da rede municipal de ensino de Fraiburgo

Jilson Carlos Souza – Educador Popular de Fraiburgo

João Carlos Rodrigues – Diretor da Apafec – Fraiburgo

Jocemir de Souza Belusso – Estudante secundarista e da coordenação da Apafec – Fraiburgo

Jornal Vitória – Tangará e região

Juliana Cruz – Estudante de Doutorado em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e integrante da Apafec

Luis Alves Pequeno – Educador Popular – Curitiba/PR

Luiz Coelho – Educador Marcial – Fraiburgo

Mariza Aparecida Fidelis Ribeiro Rodrigues – Diretora da Apafec – Fraiburgo

Matheus Fernando Mohr – Professor da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS Campus Erechim – RS

Mylena Rocha de Souza – Estudante secundarista de Santa Cecilia

Naira Estela Roesler Mohr – Professora da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS Campus Erechim – RS

Padre Celso Carlos P. dos Santos, vigário da Paróquia Imaculada Conceição – Fraiburgo

Padre Vilmar Gazaniga, pároco da Paróquia Imaculada Conceição – Fraiburgo

Paróquia Imaculada Conceição de Fraiburgo

Paulo Eduardo Goncalves da Silva – educador físico efetivo na rede municipal de educação de Salto Veloso

Paulo Pinheiro Machado – Professor pós-doutor pela Universidade Federal Fluminense e na Universitat Autonoma de Barcelona, diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH, Leciona no curso de graduação e no Programa de Pós-Graduação em História da UFSC.

Roberto Bohnenberger – diretor financeiro da Cresol Tangará

Sofia Hermes – estudante secundarista e da coordenação da Apafec – Fraiburgo

Eliza Balbinot- PJR- São Miguel do Oeste

Sidimar Borges- PJR- Barra Bonita

Hérica Leiria- PJMP- Guaraciaba-SC

Diego Mülh- PJMP- Guaraciaba-SC

Ingridi de Oliveira- PJMP- Guaraciaba

Angélica Cavasin- PJR- Barra bonita

Aline Sulzbach- PJR- Paraíso

Salete Bedin – MMC – Barra Bonita

Maicon Perdersseti – PJR e MPA – Bandeirante

Daniele Casagranda – PJR – Descanso

Eliezer Antunes de Oliveira- PJMP- São Miguel do Oeste

Janaína Aruna Hagemann- PJMP- São Miguel do Oeste

Anderson Rodrigo Baugardt – PJMP – São Miguel do Oeste

Daiana Debona – MST – São Miguel do Oeste

Adriano Prates- PJR- Fraiburgo-SC

Eduarda Roman – PJR – Barra Bonita

PJMP\PJR- Descanso\SC

PJMP\PJR- Guaraciaba-SC

PJMP\PJR Caçador-SC

Grupo de Base Antônio Conselheiro- PJMP- São Miguel do Oeste

Grupo de Base Sepé Tiarajú- PJMP- São Miguel do Oeste

Grupo de Base Oziel Alves – PJMP – São Miguel do Oeste

Grupo de Base Chica Pelega- PJMP- São Miguel do Oeste

Jean Carlos Carlesso – Advogado

Juliane Demark – PJR – São Miguel do Oeste

Maiara Cristina Gaiardo – PJR – São Miguel do Oeste

Fabiano Baldo – MPA/SC

Luana Carla Casagranda – MPA/SC

Claudia Ciconet – PJR – Descanso

Amanda Bonamigo – PJMP – São Miguel do Oeste

Andressa Graziola – PJR – Bandeirante

Claudiane Ludwig – PJR –  Paraíso

Artigo publicado originalmente no Portal Desacato.

Nota de Repudio e Solidariedade com nossa companheira jornalista popular Cláudia Weinman

Devido à reportagem intitulada: Indígenas foram ‘convidados’ a se retirar do centro de São Miguel do Oeste, publicada originalmente no Portal Desacato –  http://desacato.info/indigenas-foram-convidados-a-se-retirar-do-centro-de-sao-miguel-do-oeste e replicado pela Agência Comunidade –www.agenciacomunidade.blogspot.com.br entre outros meios eletrônicos, a companheira jornalista popular, Cláudia Weinman do coletivo da PJR e PJMP (a esquerda na foto acima), vem sendo ameaçada, difamada, insultada, por pessoas vinculadas ao poder público e advogados da burguesia de São Miguel do Oeste.

Nós infra firmados REPUDIAMOS esse ato atroz e truculento da burguesia miqueloestina, alertamos caso as ameaças e a falta de respeito continuem tomaremos todas as providências legais necessárias.

Rejeitamos todo tipo de amedrontamento à imprensa, situação que vem tornando-se corriqueira em Santa Catarina e sobre a qual nenhuma medida é tomada, como se os tempos da ditadura tivessem voltado a terras catarinenses.

Solidarizamo-nos e Parabenizamos o valor, a consistência jornalística e a luta constante da jovem jornalista Cláudia Weinman que defende em seu labor diário os mais frágeis, explorados e oprimidos, reportando as mazelas sociais que os mesmos sofrem há mais de 500 anos.

Instituições e pessoas signatárias:

Agencia Comunidade – Tangará e região;

Associação Comunitária e Cultura herdeiros do Contestado – ACECON;

Associação Cultural Comunitária Amigos de Tangara – ACCAT;

Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular – Apafec;

Associação Vital Fraiburgo de Karatê-dô com atuação em Fraiburgo, Lebon Régis e Timbó Grande;

Blog Esportes em Debates – Fraiburgo e região;

Blog Palavras Insurgentes – Florianópolis;

Revista Pobres e Nojentas – Florianópolis;

Cássio Giovani Turra – jornalista responsável pela comunicação do mandato popular do Deputado Estadual Pedro Baldissera;

Elaine Tavares – jornalista popular, com atuação no Instituto de estudos Latinoamericanos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina);

Emerson Souza – educador físico efetivo na rede municipal de educação de São Bento do Sul;

Fabiane Aparecida Guedes – educadora efetiva da rede estadual de ensino com atuação em Fraiburgo;

Frederico Idalcir Colombelli – professor de Língua Portuguesa efetivo da rede municipal de ensino de Fraiburgo;

Jilson Carlos Souza – educador popular de Fraiburgo;

João Carlos Rodrigues – diretor da Apafec – Fraiburgo;

Jocemir de Souza Belusso – estudante secundarista e da coordenação da Apafec – Fraiburgo;

Jornal Vitória – Tangará e região;

Juliana Cruz – estudante de Doutorado em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e integrante da Apafec;

Luis Alves Pequeno – educador Popular – Curitiba/PR;

Luiz Coelho – educador marcial – Fraiburgo;

Maciel Cover – Militante da Pastoral da Juventude Rural – PJR e professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT;

Mariza Aparecida Fidelis Ribeiro Rodrigues – diretora da Apafec – Fraiburgo;

Matheus Fernando Mohr – professor da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS Campus Erechim – RS;

Mylena Rocha de Souza – estudante secundarista de Santa Cecilia;

Naira Estela Roesler Mohr – professora da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS Campus Erechim – RS;

Padre Celso Carlos P. dos Santos, vigário da Paróquia Imaculada Conceição – Fraiburgo;

Padre Vilmar Gazaniga, pároco da Paróquia Imaculada Conceição – Fraiburgo;

Paróquia Imaculada Conceição de Fraiburgo;

Paulo Eduardo Goncalves da Silva – educador físico efetivo na rede municipal de educação de Salto Veloso;

Paulo Pinheiro Machado – Professor pós-doutor pela Universidade Federal Fluminense e na Universitat Autonoma de Barcelona, diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH, Leciona no curso de graduação e no Programa de Pós-Graduação em História da UFSC.

Roberto Bohnenberger – diretor financeiro da Cresol Tangará;

Sofia Hermes – estudante secundarista e da coordenação da Apafec – Fraiburgo.

Em marcha, Romeiros\as recordam Genocídio no Contestado, em Timbó Grande

O lugar remete ao maior conflito histórico da luta pela terra em Santa Catarina. Mártires como Maria Rosa, Chica Pelega, Monge João Maria e tantos outros\as que morreram pela liberdade do povo foram lembrados durante a 23ª edição da Romaria da Terra e da Água no domingo, dia 13 de setembro, em Timbó Grande\SC. Com o lema: “Redutos de resistência, esperança e encantamentoDSC_0566 da vida”, mais de 10 mil romeiros caminharam pelo chão de sangue onde caboclos e caboclas foram assassinados brutalmente e covardemente durante a Guerra do Contestado (1912-1916).

Após 100 anos da Guerra Sertaneja do Contestado, as cenas que permanecem vivas na memória do povo que participa da romaria, trazem para a reflexão a contínua concentração de terras no Brasil e no mundo, os conflitos entre povos originários e europeus, a não aceitação da real história de genocídio que refletiu em mudanças significativas na configuração de todo estado catarinense, principalmente, resultou na “limpeza” e “pureza” das áreas até então habitadas por indígenas e caboclos para o início de um desenvolvimento individual, baseado na lucratividade de patrões e exploração da mão de obra barata.

A romaria neste sentido, segundo o Educador Popular, Jilson Souza, faz uma recordação da história do genocídio do Vale de Santa Maria, ou Timbó Grande, o último reduto santo do Contestado. “É necessário fazermos uma reflexão sobre as injustiças que acontecem hoje, mesmo 100 anos após a Guerra Sertaneja do Contestado. A terra do Contestado continua marcada pelo conflito e pela acumulação. A romaria eleva a consciência dos romeiros e romeiras, e pode fortalecer as suas diferentes formas de organização, despertando em todas e todos a sensibilidade humana, o respeito pela vida, o repúdio à opressão e à violência”.

O Pároco da Igreja Matriz São Miguel Arcanjo, de São Miguel do Oeste\SC, Reneu Zortea, acrescenta que a 23º Romaria da Terra e da Água é elemento integrante de uma igreja CEBs de libertação. “Assumimos essa romaria como sendo algo especial em nossa opção de igreja. Nela participamos tendo como base, a formação junto as comunidades, em preparação a romaria. Por meio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), realizamos os seminários da terra em nossa região a fim de resgatar a memória histórica de resistência”.

Zortéa também enfatiza a necessidade da igreja voltar-se aos trabalhos de base e a formação de consciência. “Precisamos atuar na defesa daqueles\as que são excluídos\as da terra. O Contestado está vivo nas nossas vidas e fazer resistência a este acontecimento é também uma opção de fé, do evangelho de Jesus. Sabemos que é um desafio trabalhar nas escolas, na igreja, nas comunidades esse tema. Viemos de uma mentalidade formada dentro de uma ideologia capitalista, onde os pobres estão sendo deixados de lado e o que vale é o grande interesse dos que dominam, exploram. Por isso, a importância de uma aliança campo e cidade, para lutarmos na contramão da história”, enfatiza Zortéa destacando a participação de 60 lideranças da Paróquia São Miguel Arcanjo na Romaria, em Timbó Grande.

Além das lideranças, movimentos e organizações sociais, que participaram da 23º Romaria da Terra e da Água, Jovens da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR), contribuíram com a equipe de animação da romaria e trouxeram presente, a vida dos caboclos\as, indígenas que vivem as margens, sobrevivendo nas periferias. “Os jovens que contribuíram na animação da romaria, vivem nas favelas de São Miguel do Oeste\SC, carregam o grande desafio de fazer resistência a uma história que nega a sua existência e que massacrou o povo caboclo”, explica Pedro Pinheiro, da equipe de animação.

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Jovens da PJMP e PJR fizeram animação da Romaria

A resistência a história do Contestado, segundo o Jovem Paulo Fortes, da PJMP de São Miguel do Oeste\SC, vive em cada bandeira colocada em punho, seja na marcha da romaria, seja nas lutas cotidianas do povo sofrido da roça e da cidade. “Devemos trazer presente essa história na qual querem que a gente esqueça, história na qual um povo foi massacrado, e sem direito algum, sem chance alguma pra se defender. Precisamos sempre fazer memória e trazer presente pois foi por lutar pela mãe terra que muitos tombaram, deram suas vidas. Lutaram contra um sistema que rouba, mata e extermina. Eu carrego sangue caboclo nas veias e quero continuar fazendo resistência a essa história que é minha também”.

Primeira Romaria

O Educador Popular, Jilson Souza, faz uma recordação da primeira Romaria da Terra realizada no dia 14 de setembro de 1986, na Cidade Santa do Taquaruçu (Fraiburgo\SC), com o lema: “Da luta pela terra brota a vida”. Segundo ele, o local foi escolhido por ter concentrado um dos maiores massacres na luta pela terra. “De um lado os latifundiários e o exército e do outro os caboclos e suas lideranças. Estes, durante mais de quatro anos (1912 a 1916), lutaram por um novo céu e uma nova terra, na Guerra do Contestado”, enfatiza Souza lembrando ainda, as frases trazidas pelos romeiros\as com os dizeres: “Senhor teu povo passa fome”, “Terra e vida lutaremos juntos”, “Povo sem terra, povo sem vida”, “Fraiburgo é destaque na agricultura, mas não tem telefone rural”, “Terra não se ganha conquista” e “Pedimos condenação para os crimes que matam os padres e agricultores que lutam pela vida”.

Cerca de 25 mil romeiros\as, 60 padres, 46 celebrantes e seis bispos, trazidos em 321 ônibus, 70 caminhões e 477 veículos pequenos participaram da primeira Romaria. Souza faz um apontamento ainda as pessoas que andaram a pé até o reduto para fazer resistência a memória e vida dos lutadores do Contestado.

 

O último Reduto Santo do Contestado

A 23 º Romaria da Terra e da Água, aconteceu na cidade Santa de Timbó Grande, onde segundo o Educador Popular, Jilson Souza, o espaço é marcado como sendo o último Reduto Santo do Contestado. “Timbó Grande foi vila de Curitibanos e depois passou a ser distrito de Santa Cecília, do qual se emancipou em 26 de abril de 1989 tendo o município sido oficialmente instalado em 1 de Janeiro de 1990”, cita Souza.

O Vale de Santa Maria atualmente conhecido como Timbó Grande, caracteriza-se conforme Souza, como uma pequena cidade localizada no Planalto Norte Catarinense. “Teve como primeiros habitantes os índiDSC_0493os dos grupos Kaigang, Coroados, e os Xokleng, também conhecidos como Botocudos. Esses índios viviam como nômades e moravam em choupanas de pau a pique, cobertas de palha. Ali se alimentavam de caça, pesca e frutos da terra. Hoje, já não existem mais índios no município, seus remanescentes estão aldeados no vale do Itajaí e no Oeste Catarinense”.

Souza salienta ainda que a ocupação da região do Timbó Grande foi feita com a vinda das famílias Alves de Almeida, Castro e Matos. “As famílias pioneiras mencionadas, são diretamente ligadas aos caboclos e caboclas, antes e durante a Guerra Sertaneja do Contestado (termo usado pelo professor Paulo Pinheiro Machado para se contrapor ao termo Guerra do Contestado). Aos índios, índias, caboclos e caboclas juntaram-se os imigrantes que vieram para a região, oriundos do processo colonial que ocorria no estado e, sobremaneira, no planalto de norte catarinense, basicamente italianos, alemães, ucranianos e polacos (política de branqueamento da região promovida pelo governo estadual da época)”, contextualiza.

O nome do município, segundo Souza, originou-se da existência de grande quantidade de árvore Timbó – Ateleia glazioviana (Leguminosae – Papilionoideae), que, segundo o Instituto Brasileiro de Florestas, é uma árvore caducifólia, com cerca de 5-15 metros de altura e 20 a 30 cm de diâmetro, é moderadamente densa e com casca e alburno, desprende odor forte e desagradável. “A palavra ‘Grande’ foi acrescida ao nome do município, para diferenciar este município do de Timbó, cidade que fica próxima de Blumenau, além disso, devido à grande extensão de terra que forma o território do município com quase 598,473 km², sendo um dos três maiores municípios catarinenses em extensão territorial”.

Outro elemento importante citado pelo Educador, diz respeito a Páscoa do ano de 1915, período marcado, no Vale de Santa Maria, pela fome desesperadora, pelos bombardeios quase ininterruptos do exército brasileiro. Souza, ao citar a data, aponta para uma Páscoa sangrenta, a Páscoa do genocídio. “Os caboclos confinados naquele fundo de vale foram impiedosamente atacados pelo poder militar da ‘república do diabo’ ao longo dos dias e noites da quinta-feira santa, sexta-feira santa, sábado de aleluia, e as tropas de Potyguara, tido, pela historiografia brasileira, como o grande carniceiro do Contestado. Um telegrama avisou ao Brasil, a Santa Catarina e ao Paraná que Santa Maria havia caído, que tudo estava queimado e que havia sido eliminada da região a dita horda de facínoras que pesteavam a paz nos planaltos e vales do Contestado. Venceu a República, pelas bocas dos seus canhões. Em toda a região do Contestado, 80% do efetivo militar da época se fez presente”, recorda.

Souza cita uma passagem descrita pelo professor Nilson César Fraga, onde ele contextualiza o que ocorreu no Vale de Santa Maria. “Nos registros do Capitão Tertuliano Potyguara nas incursões do exército brasileiro, houve a queima de 902 casas, uma igreja, a morte de 133 caboclos e 22 soldados. Ao fundo do vale, tem-se outros 91 rebeldes e 18 soldados mortos”.

Outras fontes históricas citadas por Souza, mencionam a morte de milhares de crianças, mulheres e homens assinados nos dias 03, 04 e 05 de abril de 1915. “O Reduto de Santa Maria passou por uma ‘queima geral’ e várias famílias caboclas foram calcinados pelo fogo, dentro dos casebres e das mais de uma dezena de igrejas incendiadas”.

Texto e Fotos: Claudia Weinman