Racismo uma questão de cor ou classe social?

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Por Wéster Francisco de Almeida[1] e Poliana Dias dos Santos[2]

“Todo brasileiro traz na alma e no corpo A sombra do indígena e do negro.”

(Gilberto freire.)

 

Neste mês de novembro, lembramos uma data bastante importante para um povo que além de excluído, foi escravizado para a garantia dos lucros e dos meios de produção para a classe que domina e desumaniza a classe trabalhadora e para, além disso, consegue fazer com que estes reproduzam um discurso totalmente distorcido do que realmente acontece na sociedade, principalmente se tratando da questão da cultura afrodescendente no Brasil.

A discussão do racismo no Brasil gira em torno de dois pontos de vista, e como segundo Boff (1997) “todo ponto de vista, é a vista de um ponto”, alguns inocentemente e outros que de inocente não tem nada afirmam não haver racismo, e há ainda os que afirmam que há. Porém são apenas discussões superficiais que não abordam, nem sequer chega perto do centro ou do cerne da questão.

Façamos o exercício de parar e analisar fazendo uma retomada do processo histórico da colonização brasileira, com a chegada dos portugueses ao país.

Ao chegarem, ou melhor, ao invadirem o Brasil, pois estes não descobriram coisa nenhuma, já sabiam que existiam terras habitáveis e muito produtivas neste local. Pois bem, após a invasão ou chegada, que seja dos portugueses ao Brasil, como afirma Almeida, Marins e Santos (2010) “estes não conseguindo escravizar os índios, trouxeram navios negreiros com escravos, prática já adotada pelos europeus desde o século XV”(2010) e que se reproduz em alguns casos até os dias atuais.

Quando, em 1532, se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira, já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. Formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio, e mais tarde de negro, na composição. (Freire, G. 1933 p. 65.).

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Mobilização do MTST no dia 20 de novembro de 2014. Foto: Agência Brasil

Sendo assim o racismo no Brasil inicia-se na Monarquia onde os negros eram submetidos a um processo de escravidão, porém isso só ocorreu por que a burguesia monárquica que não conseguiu dominar os índios trouxe os negros para o Brasil, pois sobre estes, tinha infinito poder que tivera sido construído desde o século XV na Europa, quando esta dominou a África. Logo os negros, foram obrigados a trabalhar para os senhores que possuíam grandes extensões de terra e produzia café, cana de açúcar entre outros.

E por aí começa o racismo no Brasil, quando os Europeus invadindo o Brasil, tratavam este povo como bichos, e estes eram obrigados a realizar o trabalho mais pesado, nas lavouras e nas sedes das fazendas, sobrevivendo em condições subumanas nas senzalas.

Neste sentido os meios de comunicação que servem à mesma classe que dominou, escravizou e desumanizou este povo camufla o racismo, na maioria das vezes com campanhas ineficientes como, por exemplo: “Diga não ao racismo” ou “Racismo é crime”, que não vão surtir efeito nenhum, senão populismos e discussões que simplesmente não irão resolver problema algum, o que torna mais evidente que isto é o mascaramento do que realmente acontece na sociedade.

Grande parte, diria até a maioria dos negros dessa sociedade excludente e meritocracia, não tem acesso à educação, trabalho, moradia e saúde; não pelo simples fato de trazer melanina mais concentrada na pele, mas pelas relações sociais de produção existente em nossa sociedade, que por um longo período histórico, não permite a raça negra á ter acesso aos meios de produção existente, que divide a sociedade em classes antagônicas.

Os que possuem os meios de produção são os que detêm a força de trabalho, é a sociedade capitalista que, aliás, é muito eficiente em trabalhar com meritocracia e heroísmo para camuflar a exploração da classe trabalhadora, transfere a culpa do não acesso a estes recursos para os negros e para a classe trabalhadora, dizendo que se não acessam ao trabalho, educação, cultura, etc…é por falta de competência, e aí eles pegam um ou dois casos isolados, de jovens pobres, negros, moradores de favela que ingressaram na maioria dos exemplos numa comunidade acadêmica e concluíram um curso superior, e endeusa esses um ou dois, pra dizer que se outros negros, jovens, moradores de favela não conseguiram tal feito, foi por “falta de empenho, pois oportunidades batem na porta o tempo todo”. Isso é manipulação da consciência, isso é a forma mais suja de alienar o sujeito, transferindo a culpa do problema da sociedade pro próprio sujeito que é vítima desta sociedade capitalista.

Ao discutirem a questão do racismo no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo, comete-se o equívoco de não levar em consideração os fatos históricos que perpassaram a sociedade, assim discutem o racismo como fator social e não econômico, pois não há interesse de quem escravizou este povo que se descubra ou discuta o cerne da questão.

O racismo só será superado quando a sociedade de classe for superada, e isso só vai acontecer quando a classe dominada fizer as lutas definitivas contra a burguesia e o Estado.  Portanto, enquanto houver antagonismo de classe haverá racismo no Brasil. Sendo assim a grande causa não é a cor da pele, e sim a posição social a qual este sujeito pertence, enquanto isso esse povo, que tem uma cultura e costumes tão ricos, que mereciam ser apreciados, sofreram, sofrem e continuarão sofrendo as consequências, que por sinal são sérias, por um longo período.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Wéster Francisco.;MARINS, Alex Nepel.;SANTOS, Poliana Dias do. A questão das terras no Brasil.Disponível em: <www.pjr.org.com.br.>. Acesso em  27 de outubro de 2012.

BOFF, Leonardo. A águia e a galinha, a metáfora da condição humana. 40 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

FREIRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. Formação da família brasileira sob o regime patriarcal/ Gilberto Freyre; apresentação de Fernando Henrique Cardoso – 50° edição. Rev. – São Paulo: Global, 2005 – (introdução à história patriarcal do Brasil).

[1] Discente do Curso de Licenciatura em Educação do Campo, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – Campus de Cascavel. Militante da Pastoral da Juventude Rural Capixaba. Email: wester_almeida@hotmail.com.

[2] Discente do Curso de Licenciatura em Educação do Campo, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – Campus de Cascavel. Militante da Pastoral da Juventude Rural e Movimento dos Pequenos Agricultores do Espírito Santo. Email: poli.mpa.pjr@gmail.com ou polianadias_santos@hotmail.com .

Política, manifestações e o pensamento conservador no Brasil – Parte II

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Por Sérgio Botton Barcellos*

No atual contexto e cultura política que vivemos no Brasil, e também no mundo, vem ganhando solo fértil, em meio a uma cultura de consumismo e individualismo exacerbado por vezes, diversas formas de manifestação de ódio e preconceito, que estão se (re) configurando no século XXI, em meio as diversas possibilidades e velocidade de transmissão de informações pelas redes sociais que prometia uma maior “aproximação” entre os (as) distantes. Entretanto, é nesse espaços virtual que milhares de pessoas (algumas por meio de codinomes) ou grupos postam diariamente inúmeros comentários de inspiração racista, xenofóbica, homofóbica ou semelhante, em uma espécie de combate às formas de diferença. Uma espécie de “todo mundo posta, poucos leem e dialogam ou interpretam”. Continue reading “Política, manifestações e o pensamento conservador no Brasil – Parte II”

Agroecologia: breve histórico e concepções.

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Por Gilmar dos Santos Andrade (Assessoria da PJR na Bahia).

Existem vários termos em disputa na sociedade. Um desses principais termos é a “agroecologia”. A disputa não é por palavras, mais por conceitos que representam projetos societários. As disputas são protagonizadas por setores das classes sociais. Em relação à agroecologia, essa disputa acontece principalmente entre os movimentos sociais do campo versus o agronegócio. Contudo, entre as organizações e movimentos sociais do campo existem concepções diferentes, decorrentes das posturas e prática das organizações em relação a construção de um projeto de campo, articulado a um projeto de sociedade. Com esse texto pretendemos expor um breve histórico da agroecologia e suas principais concepções dentro dessas organizações. Continue reading “Agroecologia: breve histórico e concepções.”