I Seminário Nacional de articulação das Pastorais Sociais, Pastorais da Juventude e Jufra acontece em São Paulo e reúne diversos militantes de todo o país.

 Por Jaqueline Andrade

Militante da Pastoral da Juventude Rural (PJR)

No feriado prolongado de Finados, entre os dias 30 de outubro e 02 de novembro desse mesmo ano, aconteceu o I Seminário Nacional de Articulação das Pastorais Sociais, Pastorais da Juventude e Jufra sediado no Centro de Formações Sagrada Família, da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, localizado na capital de São Paulo com o objetivo de construir uma rede de enfrentamento da criminalização e do genocídio da Juventude. Estavam presentes no encontro a Pastoral da Juventude, Pastoral da Juventude do Meio Popular, Pastoral da Juventude Rural, Pastoral Carcerária, Pastoral da Criança, Comissão Pastoral da Terra, Pastoral dos Pescadores, Pastoral de DST/AIDS, Pastoral Afro-Brasileira, Pastoral Operária, Juventude Franciscana do Brasil, Pastoral da Juventude Estudantil e padres assessores do seminário.

Foi discutido durante o encontro a problemática da questão de genocídio em que as Juventudes estão enfrentando no Brasil, fala-se Juventudes pela diversidade e especificidades dos jovens que estão nas periferias das cidades, nas comunidades tradicionais, no meio campesino, nas penitenciárias e entre outros. Com isso é recorrente que o foco desse encontro esteve no setor da Juventude, em vista de ser em ampla medida a categoria mais criminalizada e exterminada na sociedade brasileira. Dessa forma buscou-se discutir conjuntamente como construir um debate de caráter unitário e as formas de defesa da vida desse setor.

Temas como o genocídio da Juventude negra, pobre e periférica, questões LGBTI e de gênero foram o que mais incidiram durante todo o encontro, isso é ocasionado, principalmente, pelos dados catastróficos de extermínio “intencional” desse público. Em estudo realizado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos sobre Violência da FLACSO – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, pelo livro “Mapa da Violência 2014”, as taxas de homicídio dos jovens apresentam um aumento de quase 195% da década de 80 para os últimos anos, e vem aumentando consideravelmente nos últimos períodos, o que fica evidente o crescimento da violência na atualidade. Em 2012 os jovens de 15 a 29 anos de idade representavam 26,9% do total dos 194,0 milhões de habitantes do país, mas foram alvo de 53,4% dos homicídios.

Quando se fala do genocídio pela cor a situação é ainda mais preocupante, de 2002 a 2012 o número de vítimas brancas cai 32,3% enquanto o número de jovens negros e negras aumenta 32,4%. As taxas brancas caem 28,6% enquanto as negras aumentam 6,5%. Com isso, o índice de vitimização negra total passa de 79,9% em 2002 (morrem proporcionalmente 79,9% mais jovens negros que brancos) para 168,6% em 2012, o que representa um aumento de 111% na vitimização de jovens negros.

Foram apontados nos espaços de discussão do seminário vários fatores para esses índices assustadores do genocídio das juventudes. O primeiro deles é a crescente privatização do aparelho de segurança. O segundo fator é o acesso desigual a serviços básicos como a saúde, a educação e, mais recentemente, a previdência social, o Estado vai progressivamente se limitar a oferecer, para o conjunto da população, um mínimo – e muitas vezes nem isso – de acesso aos serviços e benefícios sociais considerados básicos. Para os setores com melhor condição financeira, há um acesso a serviços privados de melhor qualidade (escolas, planos de saúde, planos previdenciários etc.). Vale ressaltar que isso faz parte essencialmente do jogo político-eleitoral e da disputa partidária.  Segundo o Mapa da Violência 2014,

As ações e a cobertura da segurança pública distribuem-se de forma extremamente desigual nas diversas áreas geográficas, priorizando espaços segundo sua visibilidade política, seu impacto na opinião pública e, principalmente, na mídia, que reage-se de forma bem diferenciada de acordo com o status social das vítimas (MAPA DA VIOLÊNCIA 2014).

O último fator é a naturalização e aceitação social da violência, em que deve ser aceito e até considerado necessário as doses de violência de acordo com a época, o local e o grupo social. Essa visão é muitas vezes tida por pessoas e instituições que teriam a obrigação e responsabilidade de proteger a sociedade da violência.

Dinamizando entre horários de oração e estudos, houve além dos debates nos coletivos sobre os temas já levantados as reflexões em grupos. Um desses grupos tinha como objetivo levantar a questão do genocídio da Juventude do Campo e a PJR foi convidada para facilitar o debate. No grupo foram suscitados vários elementos que levam, não exatamente ao genocídio, mas a falta de aparato na subsistência das famílias que vivem no campo, consequentemente, aos jovens. O agronegócio e o latifúndio caracterizam ordinalmente o item mais incisivo na falta de terra (fator elementar para os camponeses), cooptação para trabalhos informais, desgastantes e na ideologia de transformar a terra e os frutos dela em apenas mercadoria. A falta de políticas públicas entra também como o principal fator de acesso a cidadania para os jovens, políticas de crédito e meios de desenvolvimento no âmbito da agroecologia, do trabalho cooperado e da economia popular e solidária. Além disso, a educação do campo ainda não atende as necessidades da maioria dos jovens do campo, as EFA’s, o PRONERA e o PRONACAMPO, são políticas que não abrangem a maioria dos jovens campesinos, ficando esses a margem de uma educação do agronegócio ou a educação que direciona ao consumismo e a conduta do trabalho assalariado nas grandes capitais. A falta de perspectiva no campo leva os jovens migrarem do campo para a cidade e lá se tornam marginalizados das políticas básicas, com isso moram na periferia, trabalham exaustivamente, tem acesso a uma educação inferior, a um transporte coletivo e a saúde precarizado. A vulnerabilidade desses jovens entra na mesma lógica daqueles que já vivem na cidade, no ciclo vicioso da violência que se configura no homicídio contínuo e alarmante dessa categoria.

A partir de todas as propostas dos grupos e dos momentos em coletivo apontou-se a preocupação das pastorais sociais, das pastorais da juventude e da Jufra no genocídio desenfreado da juventude, sobretudo dos que estão na cidade, são pobres e negros. Com isso é analisado a necessidade da visibilidade dessa realidade e o desenvolvimento de ações conjuntas, uma delas é a criação de uma rede de ações na superação desses marcos. Foi encaminhado que em 2016 haverá um seminário ampliado com mais pastorais e movimentos populares e sociais que defendem a questão das Juventudes. Haverá nesse sentido a publicação de artigos e materiais que visibilizem as ações realizadas.

Como bem diz Zé Vicente “é missão de todos nós” acreditar e lutar na defesa da juventude e na promoção de ações transformadoras motivadas pela libertação do povo, na igualdade e na fraternidade, uma igreja comprometida com as causas sociais como indica o Papa Francisco.

Curitiba, 09 de novembro de 2015.

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