Agroecologia: breve histórico e concepções.

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Por Gilmar dos Santos Andrade (Assessoria da PJR na Bahia).

Existem vários termos em disputa na sociedade. Um desses principais termos é a “agroecologia”. A disputa não é por palavras, mais por conceitos que representam projetos societários. As disputas são protagonizadas por setores das classes sociais. Em relação à agroecologia, essa disputa acontece principalmente entre os movimentos sociais do campo versus o agronegócio. Contudo, entre as organizações e movimentos sociais do campo existem concepções diferentes, decorrentes das posturas e prática das organizações em relação a construção de um projeto de campo, articulado a um projeto de sociedade. Com esse texto pretendemos expor um breve histórico da agroecologia e suas principais concepções dentro dessas organizações.
A primeira vez que o termo agroecologia surgiu foi na década de 1930, como sinônimo de ecologia aplicada as práticas agrícolas. Com o avanço do capitalismo no campo nas décadas posteriores, principalmente com a “Revolução Verde”, ocorre uma dissociação maior entre agronomia e ecologia. Nesse período a agroecologia era considerada disciplina que estudava o manejo dos agroecossistemas . Na década de 1980 a agroecologia se populariza, graças aos trabalhos dos acadêmicos Miguel Altieri e Stephen Gliessman.

Esses autores dão um enfoque científico nas pesquisas empreendidas nas comunidades tradicionais campesinas, principalmente na América Latina. A agroecologia, segundo Miguel Altieri, é a “ciência que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias para estudar, analisar, manejar, desenhar e avaliar agroecossistemas”. Essa primeira concepção de agroecologia é denominada de técnico-acadêmica. É uma concepção de “vertente americana ”. Essa concepção apresenta um avanço, na medida em que reconhece o conhecimento dos camponeses integrados à ciência, no desenho e manejo de agroecossistemas e produção sustentável. Os riscos ou limites dessa “vertente americana” é a supervalorização da técnica, mesmo com uso de metodologias participativas e a ênfase na academia como espaço de disputa de modelos.

Ainda na década de 1980, a agroecologia vai se constituindo agregando outras áreas do conhecimento. Uma das contribuições fundantes nesse período foi o viés sociológico, dado por Eduardo Sevilla-Guzmán e Manuel González de Molina, ambos da Andaluzia – Espanha. A partir desse momento passamos a ter a segunda concepção de agroecologia. A concepção sociologia, de “vertente europeia”. A grande contribuição dessa concepção é a integração das disciplinas científicas com as práticas das comunidades camponesas. Nessa concepção há uma valorização do campesinato como sujeito e as formas de organização social. Vale destacar que entre as décadas de 1980 a 1990, organizações não governamentais (ONGs) foram os principais sujeitos que disseminaram a agroecologia no Brasil.

A partir dos anos 2000, os movimentos sociais do campo, principalmente os movimentos sociais articulados na Via Campesina incorporam a agroecologia a sua estratégia política . Esse período para a Via Campesina caracteriza-se por um forte enfretamento ao agronegócio e pela consolidação de sua plataforma política. Muitas são as iniciativas que fortalecem a agroecologia. Apenas a título de exemplo temos a disseminação de cursos de agroecologia pelo país. Inclusive com o primeiro curso superior de tecnologias em agroecologia, realizado pela Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA), escola vinculada a Via Campesina e também a realização das Jornadas de Agroecologia. Incialmente no estado do Paraná e depois ampliado para outros estados.

A Via Campesina compreende a importância das contribuições das concepções técnico-acadêmica e sociológica. A Via concorda que a agroecologia tem uma especificidade, que é a construção de um projeto de campo. Entretanto, a plena construção da agroecologia é simultaneamente a construção do projeto de campo só acontece com a superação da sociedade capitalista.

Nesse sentido, encontra-se em gestação outra concepção de agroecologia, a partir da prática dos movimentos sociais do campo, que apontam a agroecologia como parte da estratégia de luta contra o agronegócio e pela superação da modelo capitalista e a construção de outra forma de organização da vida, construída pelos produtores livremente associados. Nessa concepção, “a agroecologia inclui o cuidado e defesa da vida, produção de alimentos, consciência política e organizacional” (Via Campesina 2009) . A agroecologia nessa concepção de agroecologia dos movimentos sociais populares do campo é parte integrante da luta por soberania alimentar e energética, pela defesa pela e recuperação de territórios, pelas reformas agrária e urbana, e pela cooperação e aliança entre os povos do campo e da cidade (GUHUR e TONÁ, 2012, 64).

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